Mal dos Trópicos (2004) – Apichatpong Weerasethakul

Cultura e Realidade

Por Samuel Costa

Prepare-se para mergulhar em uma outra perspectiva de mundo. Misticismo, xamãs, tigres, animais que comunicam com você e um desejo pelo outro incontrolável.

Para aqueles que pensavam que o cinema de hoje estava perdido, que os bons filmes e bons diretores estavam no passado, está na hora de rever esse conceito. O tailandês Apichatpong Weerasethakul, conhecido internacionalmente como “Joe”, traz para o cinema atual um ponto de vista totalmente novo, uma ruptura com a visão ocidental de cinema, uma estrutura e perspectiva em seus filmes que deixam o espectador arrebatado por um mundo que não é o seu.

“Mal dos Trópicos” (Sud Pralad) (2004) foi vencedor do prêmio de júri no Festival de Cannes e eleito pela crítica como o melhor filme do 28º Mostra de Cinema de São Paulo. A história é dividida em duas partes e fica a escolha do espectador fazer uma ligação linear de continuidade entre a primeira e a segunda. A princípio podemos considerar duas partes com histórias separadas.

A primeira parte narra o amor entre dois jovens, Keng, um soldado da guarda florestal, e Tong, um camponês que vive com a família em um vilarejo. A retratação do cotidiano está presente nessa primeira parte, onde as singelas representações desse amor estão dos detalhes do dia-a-dia.

As relações do início de um romance, envergonhadas, silenciosas e tímidas se misturam com outras características da vida cotidiana, o jogo de futebol, o trabalho, a reunião em família para jantar, o contato com a religiosidade, etc. Sem se pautar no exotismo o diretor faz um belo passeio mostrando o jeito de ser tailandês. Ele apresenta o contraste entre a tradição tailandesa e aquilo que foi integrado a cultura advindo da globalização, no entanto, ao contrário do que pensa o senso comum, não é porque aderimos características da cultura do outro que estamos perdendo a nossa. A cultura é dinâmica e a idéia de que um grupo social que tenha uma cultura tradicional perde cultura para um outro grupo já foi superada. Essa teoria chamada de aculturação, ou seja, resumidamente a perca de cultura, é uma teoria ultrapassada. Não é porque nós brasileiros bebemos coca-cola que nos tornaremos americanos, ou menos brasileiros. O que ocorre é a mudança cultural e a ressignificação da cultura do outro.

E nessa primeira parte traçamos um caminho por essa cultura cheia de elementos tradicionais e outros “modernos”. Nesse sentido uma cena interessante é quando Tong e Keng vão ao hospital para cuidar do cachorro do primeiro, que foi atropelado. Na hora de preencher o formulário Tong pede a ajuda de Keng e nos revela que ele tem dificuldade de ler e escrever. Na cena seguinte temos Tong em uma espécie de lan house jogando um game de guerra típico, desses em primeira pessoa, o colega do lado não consegue recarregar sua munição, Tong vai lá e ajuda ele. Essa cena apresenta um contraste e tanto, entre o não saber escrever e o domínio da técnica do jogo, da tecnologia. Poderíamos partir da perspectiva de cultura dominante. Cultura essa que é pautada na tecnologia, na ciência, na globalização. Mas de qualquer forma ela também não significa que nós estamos perdendo cultura, segue a mesma lógica da mudança e da ressignificação cultural. É claro que em muitas situações de contato interétnico, quando uma cultura é imposta ao outro, são passíveis de crítica, como o colonialismo e imperialismo, por exemplo, mas o que deixamos bem claro é que não ocorre uma perda de identidade dessas sociedades tradicionais. Na segunda parte do filme o diretor dá um show e quebra totalmente essa visão de mundo ocidental e globalizado, mas deixemos o melhor para depois, já voltamos a falar sobre isso.

Dentro da primeira parte mesmo, Weerasethakul nos introduz à uma diversidade de elementos culturais tradicionais, que assim como a tecnologia, a internet, o cinema e as lojas, também fazem parte da cultura tailandesa hoje. Podemos citar primeiro o momento da refeição, a família se reúne em uma espécie de plataforma de madeira que fica do lado de fora de casa. Depois temos também a mulher que vende flores que conta a lenda do pequeno monge que faço questão de reproduzir. Havia uma história de que dois camponeses estavam caminhando em uma mata e encontraram um pequeno monge. Esse perguntou à eles se gostariam de ser ricos, eles respondem que sim. O monge falou para eles irem ate o lago ao lado e buscarem pedras, eles fizeram isso e quando voltaram, eles perceberam que as pedras haviam se transformado em ouro e prata. Os camponeses então esvaziaram as bolsas com ouro e prata e voltaram ao lago para buscar mais, mas quando voltaram eles só tinham pedras nas bolsas e aquele ouro e prata que eles tinham deixado no chão havia se transformado em sapos. O interessante é a análise que a mulher faz de um programa do tipo “Quem Quer Ser Milionário” e comenta que uma mulher perdeu uma grande quantia de dinheiro porque só queria ganhar mais e mais. Ela usa essa perspectiva do mito para analisar um aspecto do mundo “moderno”, no caso, esse programa de televisão. E para vermos isso não é preciso ir à Tailândia, Bali, aos aborígines australianos ou ás comunidades indígenas do Brasil, nós encontramos esse tipo de análise aqui mesmo nas cidades urbanas e grandes metrópoles do ocidente. Difícil quem nunca ouviu algo do tipo.

Outra cena muito linda ainda na primeira parte do filme e que também quebra com a visão de origem ocidental e cientificista é a entrada em uma caverna que é também um templo. Só para constar a maior parte da população tailandesa é budista. Vemos os dois apaixonados mais a simpática vendedora de flores reverenciando estatuetas religiosas e entrando por um túnel misterioso pequeno e escuro, onde, segundo a vendedora, um homem quase morreu.

É interessante a ressignificação da cultura como, por exemplo, quando a irmã da vendedora de flores atribui os seus bons negócios no comércio a um falo de madeira sagrado que ela encontrou no templo. O filme é todo permeado por esses elementos que misturam uma visão racionalista (e nesse caso uso o termo racional em uma perspectiva empirista descendente do iluminismo) com uma visão mística e religiosa.

Quando o filme está quase chegando à segunda parte temos um dos pontos máximo desse relacionamento amoroso entre os dois rapazes ainda na primeira metade do filme, uma espécie de beijo onde eles lambem a mão um do outro em uma cena que alcança um auge de obscenidade. É o ponto máximo em que eles satisfazem esse desejo recíproco até então.  Digo até então porque o ápice do filme está na segunda parte. Depois dessa cena tão linda temos as seqüências de Keng feliz e sorridente em vários momentos depois daquele dia. Vemos aí a satisfação do desejo (que ao mesmo tempo aumenta), e a conseqüente felicidade, apresentada na forma mais simples e singela de sorrisos, talvez esteja nos indicando algo além do desejo, o amor.

Antes de chegar à segunda parte, outro ponto que também é muito importante é que o filme não apresenta uma discussão sobre gênero. Apesar de ser um casal gay, essa não é a questão do filme, isso não importa. Não é um filme sobre homossexualidade. Nós ficamos apreensivos quando a mãe de Tong acha um bilhete amoroso de Keng para filho dela. Ela esconde o papel e deixa toda uma tensão no ar. Quando vai falar com o filho sobre isso ela não cita em nenhum momento o fato deles serem do sexo masculino. Ela ri e conversa com ele com uma enorme tranqüilidade, sem reprimi-lo. É uma forma de tratar da questão indiretamente, não é essencial para o desenrolar do filme, mas dá um plus por tratar do tema com tanta naturalidade. Da mesma forma como a heterossexualidade é retratada de forma tão natural no cinema, a homossexualidade também é neste filme.

Na segunda parte temos uma ruptura com essa da qual falamos até agora. Apesar de “Joe” abordar questões mitológicas na primeira parte do filme, na segunda nós somos levados pra dentro da mitologia. Essa passa a ser a visão de mundo, abandonando todo o ocidentalismo racionalista científico.  E agora usando um sentido de racional weberiano (e não mais o iluminista), entramos dentro de uma nova racionalidade, uma outra lógica de mundo onde impera a mitologia descendente de uma cultura tradicional local.

A lenda diz que havia um xamã que podia se transformar em várias criaturas. Esse xamã ficava na floresta e pregava travessuras nos moradores das vilas. Ocorre que vacas estão desaparecendo em um povoado. Um morador também está desaparecido, que é interpretado por Sakda Kaewbuadee, o mesmo que interpreta Tong (e pode até ser o próprio Tong) e um soldado florestal é enviado em busca desse morador, este é Banlop Lomnoi, o mesmo que interpreta Keng (que também pode ser o mesmo personagem).

Nesse momento esqueça qualquer fundamentalismo empirista e abra sua mente, porque nós espectadores ganhamos nessa segunda parte novos olhos para o que é real. Um olhar onde a mitologia é real. Animais se comunicam conosco, podemos ver espíritos saindo de seus corpos ou então o poderoso xamã que ora é homem ora é tigre.

Nos sentimos perdidos dentro da floresta, que é viva, detentora da capacidade da linguagem, da comunicação. A floresta é um dos principais personagens, misteriosa, densa e poderosa. Junto aos animais, como o macaco, o besouro no dedo do soldado e os vaga-lumes na árvore à noite, e todos os habitantes daquele lugar, aos poucos, através de uma comunicação misteriosa com o soldado, vão fazendo com que este se integre a esse lugar. Ele passa a fazer parte desse mundo no qual a princípio ele é um estrangeiro. Mas o fator mais importante que move essa transposição é o desejo que existe entre ele e tigre, o xamã.

O soldado e o xamã se encontram em vários momentos e o embate entre eles não representa uma rivalidade, mas um jogo de desejo, que aumenta cada vez mais. No momento em que o soldado já está integrado a essa outra perspectiva de mundo temos cenas belíssimas como, por exemplo, quando o soldado assiste o espírito de um boi se levantando de seu corpo ou então quando os vaga-lumes se reúnem entre os galhos da árvore no meio daquela floresta escura. Mas nenhuma supera a conclusão, o verdadeiro ápice de satisfação desse desejo quando o tigre devora a alma do soldado. Os closes nos rostos, os desenhos que ilustram a lenda. É simplesmente de deixar o espectador maravilhado com uma beleza encantadora e técnicas simples.

Um ponto que não podemos deixar de fora é o som da floresta. A sensação é de que nós fomos transportados para dentro de uma mata que tem vida e se comunica conosco através do som das folhas, do vento, dos insetos, pássaros e qualquer outro ser misterioso que habite esse lugar.

O legal é como o diretor mostra tudo isso no filme sem fazer nenhum julgamento entre uma visão científica de mundo e uma visão mitológica. Muito pelo contrário, ele mostra como existe não só uma, mas muitas maneiras de enxergar a realidade. Afinal de contas, quem somos nós pra desmentirmos a lenda do xamã? Quem somos nós pra dizermos o que é a verdade? Sem fazer julgamentos morais, a riqueza da humanidade não está na cultura dominante, no mais luxuoso, caro e tecnológico ou então no mais importante herói da História. Ela está na diversidade da cultura, ou seja, nas vaiáveis formas de ser humano.

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2 respostas para Mal dos Trópicos (2004) – Apichatpong Weerasethakul

  1. Necilda disse:

    Primeiro filme que vi no projeto. Muito bom!

  2. Igor disse:

    Hey Samuka, legal sua crítica!
    Uma das coisas que você escreveu e que me chamou a atenção e que tem tudo a ver com o filme é a questão da re-significação cultural. De fato, é isso e, além disso, uma re-significação dos próprios signos. O Apichatpong, muito mais em Síndromes e um Século, seu filme mais conceitual, joga muito com os intercâmbios entre significantes e seus significados. A gente tende quase sempre a procurar sentido nas imagens e nas articulações dos planos, mas na verdade, às vezes, a imagem é puramente aquela imagem e só, podendo voltar ao longo do filme com um outro conceito, outro significado, como ocorre muito em Síndromes e um Século.
    Além dessa questão conceitual que eu considero marca do Apichatpong, há todo um trabalho sensorial, minucioso e intenso, que ele faz em seus filmes, muito em Mal dos Trópicos e muito mais em Tio Boonmee. A segunda parte do Mal dos Trópicos (eu acredito que há sim uma relação de completude com a primeira. Não um complemento narrativo, mas sim no campo do pensamento e do sentimento, uma dimensão mais abstrata) é uma baita experiência à qual somos convidados a participar, como em uma instalação mesmo (aliás o Apichatpong também é vídeo-artista e artista plástico). Nessa parte, creio que há uma reconstrução do filme, melhor do que falar em complemento, acho. Um dos elementos que me fazem pensar nessa idéia de reconstrução são as cartelas introdutórias da segunda parte, dando a impressão de que veremos outras personagens, outra história. E, de fato, é mais ou menos isso. Parece-me uma fábula, encenada pelos personagens da primeira parte, como se eles fossem os atores, e não os atores reais. Viagem demais? hehehe.. Além disso, a própria decupagem, ambientação, sensorialidade, contextualização e atemporalidade, enfim, toda essa ruptura alienígena que tira o chão de nós espectadores me faz crer que estamos diante de um novo filme, experimental, profundo, tenso, intenso e mais objetivo que o primeiro da primeira parte quanto ao que ele nos quer dizer, por mais que ele não tenha intenção nenhuma de passar alguma mensagem. Mas para mim, vencido pelo forte desejo de interpretar as coisas, fica a mensagem de que nós todos somos diferentes, iguais, humanos, animais, concreto, Natureza, significante e significado e de que o Cinema é um objeto imenso, maior do que imaginamos.

    Adorei seu texto.
    Se cuida
    😉

    Igor

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