As Pequenas Margaridas – Vera Chytilová

por Gabriel Dominato.

A marcha militar abre as cortinas. Ao lado de tiros e bombardeios, uma velha e emblemática engrenagem. Aquele que constrói a máquina útil ao seu cotidiano é o mesmo que cria as bombas que mutilam seus semelhantes e, também ele, agindo como uma máquina. A marcha toca e ele segue marchando como uma engrenagem mecânica, nunca parece parar, a música cessa, aviões passam, mas não foram embora, a marcha volta e tudo recomeça no que parece ser um ciclo interminável.

É assim que nos é apresentado Sedmikrasky, lançado no Brasil como “As Pequenas Margaridas”. Realizado pela genial Vera Chytilová em 1966, tal filme mostra o vigor e a inventividade que se tornou marca da Nouvelle Vague. Essa realização é de grande importância para o cinema político – embora a primeira vista não pareça – que se desenvolveu no leste europeu nos idos da década de 1960, como forma de dar voz a um povo há muito calado contra a própria vontade em seu país por vizinhos opressores, e Vera, uma ativista consciente de seu tempo, acredita piamente na força do conhecimento e protesto pela arte, ou pelo menos é o que ela realiza neste “As Pequenas Margaridas”.

Vemos as Margaridas refletindo sobre o mundo, desanimadas, nada parece dar certo, tudo está cinzento e seus movimentos e membros enferrujados, parece que há muito não tem exercitado suas forças ou direitos. Ao perceberem como o mundo tem sido um mal lugar, decidem que serão mal também.

A morena então começa com seu primeiro ato de maldade, porém ainda envolto da inocência começa de forma suave, dá um tapa na Margarida loira, que caí num campo maravilhoso, e tudo fica colorido, elas estão alegres como crianças pulando e brincando, até que um certo fruto lhes chama atenção, simbolizando o fruto da árvore do conhecimento elas decidem comê-lo. Uma vez com este conhecimento não mais conseguem aceitar o marasmo e o tédio da vida medíocre cotidiana. Precisam extravasar. Agora sua imaginação, contaminada pelo saber, começa a fluir rapidamente, e elas voltam a exercitar suas vontades sobre o mundo, que lhes serve de palco para realizarem seu próprio espetáculo.

Temos presente, como alusão ao conhecimento, um objeto que torna a mulher intelectual e independente, de forma a já não precisar mais dos homens. A sátira ao mundo machista ocorre o tempo todo, onde todos os homens são vistos como grandes beberrões pelas Margaridas, tentando comprar seu amor com ternos caros e jantares em restaurantes luxuosos, poesias e declarações que só fazem as Margaridas, facetas da mulher moderna, se divertirem entre si, enrolando tantos homens que as duas preencheram todas as paredes e até o teto de um quarto com nomes e telefones, mostrando deboche por todos. Em uma cena em especial quase morrem de rir quando veem um homem de sunga no píer, tamanha a imbecilidade que veem na imagem. É assim que parecem ver todos esses homens vazios de uma burguesia que não mais existe como classe, e tudo o que podem lhes proporcionar é um pouco de diversão.

A critica a esse amor tem especial destaque nas cenas em que as Margaridas demonstram mais interesse em comer do que ouvir qualquer coisa que os homens tenham a dizer, aliás, apenas interesse em comer, em certa hora a loira diz “eu amo comer”, desviando o assunto que um dos velhos tenta puxar. Vera parece dizer a esses homens o que todas as mulheres devem pensar desses que creem ser cavalheiros, porém na verdade não passando de bufões e chorões. Mas são estes homens, que parecem tão inofensivos, que realizam a guerra e a destruição que vemos no início, eles são os que mantém aquela engrenagem curiosa e perigosa girando, e, uma vez que se descobre quem são eles através da verdade – do fruto – estes merecem ser zombados e denunciados pela película, mas Vera faz isso com total sutileza, que apontar isso é até arriscado nesta análise por ser de conteúdo tão subjetivo, porém decidi fazer esse apontamento, pois foram esses homens que no ano de lançamento do filme barraram a estréia na Tchecoslováquia, lá chegando apenas um ano depois. Então é sinal de que os homens que na época censuravam os filmes viram sua caricatura traçada e desdenhada no filme, logo parecem assinar sua confissão de culpa. Pois não se censura o que não incomoda, e nada que que não seja uma real ameaça pode incomodar. Pois o filme é como o fruto do conhecimento para seus espectadores, capaz de incitar profunda reflexão e revolta contra os homens que criaram a engrenagem. Lembrem-se que a marcha nunca para de tocar.

Na cena emblemática que vemos no final, Vera de forma magistral nos conduz a um jantar de gala, elegantemente alinhado, onde as Margaridas fazem tudo o que querem, seguem seu bel prazer, e ouvimos o barulho, o ruído da anarquia que é o novo cinema, mas não apenas isso, é a vigorosidade do novo indo de confronto com o velho, a antiga geração formalista sendo contrariada por uma nova e inconformada geração de jovens questionadores.

O ser mal é quebrar a rotina, vemos a angústia delas quando de qualquer forma se aproximavam do banal. Ser mal é transgredir as convenções sociais e costumes a que estamos aprisionados diariamente. É fugir desse clichê a que nossa vida está acondicionada de agora até seu fim. E se o mundo continua igual, então cabe a cada um de nós fazer algo que altere esse eterno retorno, de forma a se fazer esquecer ou simplesmente ignorar qualquer convenção ou costume social que obedecemos sem questionar, e não de forma sutil, mas como a Margarida loira fazer com a comida, ela diz “De forma bem sutil, para ninguém nos censurar”, mas crava suas mãos como garras na comida, esmigalhando-a. Não se deve ter medo da censura. Não se deve deixar que ela impeça que se faça o que se quer e como se quer. Mas o esmagar ainda tem outro sentido mais profundo, elas querem que se faça notar sua presença em seu mundo, que se faça saber que elas estiveram aqui e que suas marcas profundas continuam, por isso quando estão no interior de Bohemia temem quando aqueles não parecem notá-las, temem não existirem, mas não no sentido prático, no sentido de que seus atos não sejam mais vistos ou ignorados, como foram os da Tchecoslováquia naquelas anos. Quando veem as cascas de milho que antes derrubaram no chão se alegram e dizem “Ali, a prova de que existimos”, remetindo ao que parece ser a filosofia de Sartre, onde seu reflexo faz parte do mundo através de suas ações, e cada ação sua será um reflexo que mudará o contexto de sua existência.

“Questionado pelo crítico Peter Cowie sobre o cinema tchecoslovaco dos anos 60, o diretor alemão Volker Schlöndorf cravou: “Esses filmes foram muito importantes, eram uma revolta contra a qualidade ´old-style´ pré-estabelecida. Não no sentido de esquerda e direita, mas no sentido de uma geração contra a outra” (trecho extraído de http://freakiumemeio.wordpress.com por Leonardo Bomfim)

A certa altura o filme se indaga. E se elas tivessem uma chance de voltar e arrumar tudo, ou seja se render à velha geração, fazendo tudo de acordo com as normas. O filme nos apresenta essa versão, elas tentam arrumar tudo, mas não adianta, porque a velha geração já está quebrada, fracionada, aos cacos, e muito dela já se perdeu, o jantar representa toda aquela decadência, e em uma das cenas com maior carga politica vemos as Margaridas desfilarem sobre a mesa, mas não estariam elas por fim pisando sobre todos os velhos e retrógrados seres da geração anterior?

A vanguarda não é mais a realidade vigente e nem a desejada por essas jovens. Não basta a elas trabalharem e serem felizes, como tentam fazer no final, porque não há tempo para trabalhar para o sistema que cria a engrenagem e ser feliz, não há tempo para refletir.

As Pequenas Margaridas é uma ode ao novo, à experimentação tanto visual quanto física, levaria outras milhares de palavras para falar sobre o aspecto técnico do filme, impecável, cheio de conotações incríveis que só sendo assistido para se entender, é uma viajem à parte, visualmente é o maior delírio que já presenciei no cinema, o quarto, as roupas e todas as cores são vislumbres psicodélicos e lisérgicos, existe a famosa cena das tesouras, onde as Margaridas recortam a si mesmas. As colagens de borboletas, os sons. É tudo vivo e delirante. Mas, além disso, é um filme para os livres espíritos que pouco se importam com toda a bobagem do mundo, com normas e costumes bobos que só limitam o prazer e a exuberância da vida.

Vera dedica o filme: “Esse filme é dedicado àqueles que só ficam indignados com a salada torta no prato”, e não aqueles que se preocupam com as aparências, costumes banais ou o que os outros pensaram. É um filme para aqueles que se importam com os pequenos detalhes que tornam a vida algo tão incrível, colorido e mágico como Sedmikrasky.

Como elas mesmas dizem, nós devemos experimentar de tudo. Não nos limitarmos ao que dizem ser certo ou bom.

Mas… você liga?

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Sobre sokoisdead

Apenas um cinéfilo.
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4 respostas para As Pequenas Margaridas – Vera Chytilová

  1. rahuanch disse:

    Muito boa a analise! Me fez entender melhor pontos que eu havia perdido e me ajudou a reforçar algumas idéias que tive durante o filme. Parabéns, começarei a acompanhar o blog, adorei.

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