Abril despedaçado (2001) – Walter Salles

Por Samuel Costa

Abril despedaçado (2001) de Walter Salles é a adaptação para cinema do romance homônimo do escritor albanês Ismail Kadaré. O roteiro foi adaptado por Karim Aïnouz, outro grande cineasta brasileiro diretor de grandes obras como O céu de Suely (2006) e Viajo porque preciso, volto porque te amo (2009). A versão original da história se refere a um contexto rural na Albânia onde a vingança é regida dentro de regras rituais. Na adaptação ao contexto brasileiro, muita coisa foi alterada, o filme aborda a guerra entre duas famílias no sertão do país, porém, em ambas as versões as regras que regem o conflito se pautam em uma lógica ritual.

O filme conta a história do conflito entre a família Ferreira e a família Breves no interior do nordeste por volta do ano de 1910. Essa rivalidade que teria se iniciado por uma questão de terra tomou a proporções maiores sob a forma de um ritual onde dar, receber e retribuir formam o eixo central para a continuidade do conflito. Tonho (Rodrigo Santoro) faz parte da família Breves e é o responsável por vingar a morte de seu irmão mais velho que teria sido assassinado por um dos Ferreira. A regra da vingança se pauta em uma gama de elementos simbólicos que devem ser seguidos e respeitados. Tonho só poderia vingar seu irmão se o sangue na camisa que este usava quando foi assassinado amarelasse. Esse é o símbolo que marca o dever de Tonho. E assim se faz. O sangue amarela e ele tem uma “obrigação” à cumprir em nome da honra da família.

Essa análise do conflito como um ritual se baseia, sobretudo, na teoria da dádiva de Marcel Mauss (1974), onde dar, receber e retribuir formam uma tríplice obrigação dentro de contextos onde as relações de troca geram vínculos sociais e sociabilidade. No caso do filme, as trocas são de rivalidade, referem-se a um ciclo baseado na vingança e na morte do membro de um integrante do outro grupo familiar. Nessa situação estamos lidando com o que Mauss define como dádiva agonística, ou seja, é quando dar, receber e retribuir tem a finalidade de rivalidade e pode ser analisada em alguns contextos de conflito. O que define essas trocas como rituais é que elas não podem ser realizadas como bem se entende e são regidas por uma série de aspectos simbólicos que configuram regras a serem seguidas. Para deixar isso mais claro elenco três desses elementos: a camisa ensangüentada do morto, pois só se pode vingar uma morte se o sangue da camisa amarelar dentro de um determinado período; a fita preta no braço, que simboliza que aquele que matou será o próximo alvo de vingança caso a lógica ritual assim determine; o período de lua cheia, pois uma das regras é que a vingança só pode ocorrer depois de um determinado tempo lunar. Outros aspectos podem ser notados, mas o que é relevante compreender é que dentro desse contexto ritual o crime não é realizar a vingança, mas sim quebrar as regras do ciclo. Em determinado momento um membro da família Ferreira, Mateus (Wagner Moura), quer a todo custo se vingar, sem respeitar o tempo e a lógica do ritual, seu pai o repreende dizendo que o sangue de cada um tem o mesmo valor e só se tem o direito de pedir o sangue que se perdeu. Dessa forma, quebrar a regra levaria à “desordem”.

Concluo que o ritual baseado na lógica da dádiva agonística dentro desse contexto que o filme nos apresenta é uma forma de controlar o conflito sem que ele leve ao caos e à desordem social. Longe de defender o conflito, muito pelo contrário, está análise tem por finalidade mostrar como os aspectos culturais e simbólicos estão presentes em todas as esferas da vida social, inclusive no que se refere à rivalidade. Como nos aponta Roberto DaMatta na apresentação do livro Os ritos de passagem de Arnold Van Gennep, “de fato, nós fazemos ritos quando amamos e fuzilamos” (p. 10, 2011).

 Refererências Bibliográficas

DAMATTA, Roberto. Apresentação. In: VAN GENNEP, Arnold. Os ritos de passagem: estudo sistemático dos ritos de porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, ordenação, coroação, noivado, casamento, funerais, estações, etc.. Petrópolis: Vozes, 2011.

MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva: forma e razão da troca nas sociedades arcaicas. In: _____. Sociologia e Antropologia. v. II. São Paulo : Edusp, 1974.

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Crocodilo (1996) – Kim Ki-duk

Por Samuel Costa

Primeiro longa-metragem do sul-coreano Kim Ki-duk, Crocodilo (Ag-o, 1996) é um filme que, apesar de embrionário e diferente de seus atuais filmes,  já apresenta algumas das principais característica que acompanha a filmografia do diretor, dentre elas, personagens em situação de marginalidade da sociedade, violência e uma incipiente sensibilidade.

O filme conta a história de Crocodilo (Jo Jae-hyeon), um morador de rua que vive em baixo de uma ponte à beira do rio Han em Seul. Com ele vivem um senhor de idade e um garoto e são como um tipo de família. Um dia uma garota tenta suicídio ao pular da ponte, Crocodilo mergulha nas águas do rio Han e a salva. Pouco sabemos sobre ela, mas ela passa a viver ali junto aos três homens.

Se nos últimos filmes de Kim Ki-duk sobressai a sensibilidade, aqui é a violência que se destaca. Crocodilo é um homem violento, autoritário, que agride, estupra, trapaceia para ganhar algum dinheiro, sem mostrar nenhum sentimento de culpa ou remorso. A violência é a sua linguagem, é por meio dela que ele se expressa e se comunica com aqueles ao seu redor. A criança que vive com ele cresce de forma similar. Apresenta repúdio à personalidade arrogante de Crocodilo e o retorna com a mesma moeda ao tentar feri-lo e matá-lo. A vida à margem da sociedade não é fácil, é preciso criar estratégias de vivências, e nem sempre diz respeito à meios legais. Crocodilo e o garoto conseguem algum dinheiro graças à trapaças que pregam vendendo produtos enganosos nas ruas.

O senhor de idade e a garota que tentou suicídio apresentam o lado mais sensível nas relações. Mas no decorrer da trama todos mostram de alguma forma essa face, mesmo que para sobreviver na vida das ruas tenha sido preciso reprimi-la. A cena em que Crocodilo corta o próprio braço com uma garrafa quebrada é marcante por mostrar o quanto ele teve que aprender a ser duro e a reprimir as suas emoções para levar essa vida.

A proposta do filme é mostrar uma visão humanizada daqueles que vivem à margem, na violência e no crime. Porém a obra não alcança o esperado com sucesso. Ele deixa brechas e ambiguidades com o que diretor quer passar. Um dos pontos mais questionáveis e passíveis de crítica é quanto a participação da personagem feminina que tenta suicídio. Seu papel é eminentemente passivo e de sujeição à violência de Crocodilo, sobretudo, sexual. Certamente um dos principais aspectos negativos nesse filme é que o diretor se foca no personagem de Crocodilo e deixa a desejar na trama e questões que envolvem os papéis secundários.

Crocodilo é um longa de estréia com uma proposta atraente, mas que é mal construída e desenvolvida. Apresenta de forma incipiante aspectos do cinema de Kim Ki-duk que serão melhor trabalhados ao longo de sua filmografia. Feitas as ressalvas, é um filme interessante.

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A Pele Que Habito – Pedro Almodóvar

Muito se falou da grande diferença do novo Almodóvar em relação aos anteriores. Ao assisti-lo achei inexistente tais diferenças. Tudo está lá: o vermelho carmin, o branco gelo, a personagem feminina de forte personalidade e um conflito. Talvez a única coisa que tenha mudado seja o conflito em si, mas não de todo, o desejo ainda é – creio que sempre será – a matéria prima de todo Almodóvar. Esteja lá no nível que for, será possível encontrá-lo, como o mais óbvio desejo em Má Educação até o mais subjetivo em Tudo Sobre Minha Mãe. Claro, deve-se ter a concepção de que desejo não abrange excluvisamente o terreno do sexual, porém em A Pele Que Habito é justamente por aí que se trafega. Outrossim, muito se taxou este novo filme de Pedro Almodóvar como terror, ou suspense, porém de forma alguma este filme se afasta do drama tipicamente almodovariano. Exclue-se todo o terror, no entanto pode-se admitir sim que o filme tenha pinceladas de suspense, mas tão infímas que não se vale a pena destacar tão óbvias ficaram ao expectador. O que quero aqui é destacar a relação doentia de desejo e poder entre os protagonistas.

A trama se passa em torno do cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas), que perdera a mulher Gal Ledgard (Blanca Suárez) em um incêncio, vivendo com sua filha traumatizada por um evento relacionado diretamente a sua mãe. Robert está desenvolvendo, contra a permissão da comissão de ética, uma nova pele que seria resistente a queimaduras e picadas de insetos, em palestra ele afirma que está sendo testada com DNA animal e que tudo corre muito bem, mas fato é que ele, em segredo, mantém uma cobaia nos confins de sua clínica, a qual funciona de forma ilegal dentro de sua própria casa. Lá dentro, Robert está recriando Gal no corpo de outra pessoa, através da aplicação da sua pele sintética e de seu profundo conhecimento em cirurgia plástica ele molda seu cobaia durante anos, desenvolvendo inclusive uma relação de amor, a qual se comentará depois. Remete logo ao Prometeu Moderno de Mary Shelley, onde o médico cria um monstro a partir do corpo de outros, a grande diferença é aqui Robert acerta onde o Dr. Frankenstein erra. Gal é perfeitamente recriada. Porém por algum motivo não se quer usar o nome de Gal, tanto é que o criador diz à criatura que agora ela se chamara Vera Cruz (Elena Anaya), apontando para um possível complexo de deus, onde se cria, nomeia e possuí o ser criado.

Vera então passa seis anos presa num quarto, sem contato com ninguém, exceto por Robert que ocasionalmente lhe traz ópio. Recebe tudo por um elevador manual, como revistas e comida. As paredes de Vera estão cheias de escritas, desde datas quando ela pergunta a Marilia (Marisa Paredes), a auxiliar de Robert, que dia é, a frases como “respire, respire”, que apontam para a condição psicológica do personagem, podendo se fazer uma leitura quase que completa desta ao se ler grande parte das mensagens escritas nas paredes, porém é algo difícil, visto que pouco nos é mostrado, e o que é o é de forma rápida, mas uma ideia se pode formar: Vera não está se sentindo bem em cativeiro.

Talvez seja interessante destacar a grande influência do cinema noir neste novo filme de Almodóvar, embora siga fiel aos tons quentes e as cores gritantes – principalmente o vermelho e o branco – ele se rende ao preto em diversas sequência, sendo um dos filmes de sua carreira mais escuros. E não apenas visualmente, a direção de atores também ficou voltada a este sentido, podendo se notar em Vera toda a beleza de uma femme fatale, e em Banderas a cara fechada dos vilões noir, faltando-lhe talvez apenas terno e um chapéu para a perfeita personificação.

Pouco depois, vemos Vera e Robert como amantes, a primeira vista parece-me legitimo o sentimento a ambos, porém ao fazer uma análise mais profunda encontro algumas dúvidas. Até um momento onde Vera vê a foto de como era num jornal que figura uma galeria de pessoas desaparecidas – porque Robert sequestrou a pessoa que iria ser o corpo para comportar Vera – ela parece de forma crível apaixonada pelo médico que a tornou no que agora é: uma mulher. Mas ao ver a foto parece tomar um susto e acordar para tudo o que passou, como se houvesse lhe ocorrido um bloqueio ou algo similar. Talvez não seja possível responder a tal dúvida, mas certamente ela irá deixar muitos curiosos, assim como eu.

Disse acima que se tornou no que é agora, porque antes não Vera não era uma mulher. Era Vicente (Jan Cornet), um jovem que conheceu a filha de Robert numa festa. Lá os casais se formaram e se espalharam pelo jardim, Vicente ficando com a filha de Robert. A início ambos se dão bem, porém quando a moça se recusa a transar com o jovem ele a agride a abandona desmaiada no jardim. Mais tarde Robert aparece e ela acorda aos gritos, repelindo que ele a toque. Uma amiga comentou algo muito interessante: porque ela repele o toque de Robert naquele momento? Se ele é o pai iria lhe representar proteção, abrigo depois do abuso. Mas não, é justamente o oposto, logo pode-se acreditar que haja entre eles um histórico próprio de abusos? Não se sabe. Mas ocorre que a filha por fim é internada numa clinica para se recuperar, e todas as vezes que é visitada pelo pai parece piorar, até que por fim se suicída. Robert então vai ao encalço daquele responsável pela morte de sua filha.

Aí então é que voltamos a Vicente, ele é o molde para recriar sua esposa Gal, porém agora chamada Vera. O doutor mantém o relacionamento em segredo assim como seu experimento, trocando o nome de Vicente para Vera, como se literalmente quisesse criar uma nova pessoa e ter uma relacionamento desfuncional com esta, ele a certa altura faz uma promessa se ela nunca iria fugir, e ela diz que não. Nesse ponto da trama surge Tigre – literalmente vestido a caráter por ser carnaval, sendo este um dos momentos mais cômicos do filme e rementendo aos primeiros e mais trashs filmes de Almodóvar -, filho de Marilia e fugitivo da polícia, que entra na casa e deixa a mãe de refém, e abusa de Vera. Robert chega em casa exatamente neste momento, e apenas observa no monitor que recebe as imagens das câmeras do quarto de Vera, o ato sexual de ambos, porém a primeira vista sem reagir. Depois pega o revólver da gaveta e segue ao quarto. Lá segue-se uma cena curiosa. Primerio ele mira em Vera, hesita, para só algum tempo depois mirar em Tigre, matando-lhe.

Com o tempo Robert desenvolve total confiança em Vera e a deixa sair com Marilia para fazer compras. Ela iria ver o mundo depois de ficar trancafiada de 2006 a 2012. Vai então, faz tudo nos conformes, porém ao voltar, já na cama com Robert diz estar machucada do abuso de Tigre e que comprara um creme para ajudar os dois a transarem. Ela vai, busca realmente o creme, mas coloca o revólver junto. Mata então Robert e Marilia e finalmente foge. Voltando para casa.

Lá reencontra uma antiga amiga Cristina, olha para a mãe e diz “Sou o Vicente”, e o filme acaba, estilo legitimamente almodovariano como o final abrupto, que porém soa tão suave, o que ocorre em Volver e Tudo Sobre Minha Mãe.

Antes de Vicente ser sequestrado por Robert ele chama Cristina (Bárbara Lennie) para sair com ele, porém ela iria sair com a namorada. Em outro momento, quando Robert está sendo ameaçado de ser denunciado ao conselho de ética, Vera se defende dizendo que não fora sequestrado, que sempre quisera ser uma mulher. Creio que aqui temos a cerne para ponderar todas as questões mais importantes que o filme levanta. Primeiro que ele pode estar dizendo a verdade, sendo Cristina lésbica e ele tendo uma aparente paixão por ela o único meio de ter uma relação com ela seria sendo uma mulher ele próprio. Segundo ele poderia mesmo ter se apaixonado por Robert por um possível Complexo de Estocolmo, porque até o momento em que vê sua própria foto no jornal parece não ter um sentimento de ódio pelo médido, depois deste fato sim. No fim restarão tão somente dúvidas. É claro que elas sempre estarão presentes nas grandes obras para que o expectador preencha as “lacunas” com suas próprias experiências de vida e morais e ética. O importante é se render durante estes 120 minutos a fantasia que Almodóvar propõe, pensar nela só depois.

Como disse no começo, essa conversa de que esse Almodóvar seria muito diferente dos outros é apenas isso, conversa, ele está com o mesmo vigor e estilo dos anteriores, apenas experimentando e acertando ainda mais, existe é claro um flerte com outros gêneros, mas chegar a taxar o filme dentro destes a meu ver é grande equívoco, A Pele Que Habito é um drama legítimo feito pelo revés da ficção cientifíca e do suspense, mais como metalinguagem do literal. Almodóvar se utiliza desses recursos apenas para discutir ética, amor, obsessão, e, principalmente, desejo.

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O Menino Peixe – Lucía Puenzo

Assisti a “O Menino Peixe” com grandes expectativas, afinal se tratava de um filme da grande diretora argentina Lucía Puenzo, responsável pelo belissímo “XXY”, um dos meus filmes favoritos da cinematografia argentina e o qual me fizera constituir grande simpatia e confiança à dupla Lucía-Inés, porém, infelizmente, minha decepção ultrapassou minha expectativa – que era muito grande.

O filme tem uma narrativa interessante, tentando fazer uma desconstrução cronológica da narrativa, se desprovindo do clássico recurso da linearidade, tão caro ao cinema tradicional. Porém aqui essa linguagem simplesmente não funciona como elemento positivo, embora devo dizer também não prejudique o filme, mostra-se completamente desprovido de um sentido prático ou artistico, como se pela ausência de um roteiro mais profundo – sobre o qual falaremos mais adiante – o artifício da desconstrução da cronologia fosse salvar as pendengas dramaturgicas e por fim amarrar as pontas soltas, o que para nossa infelicidade não ocorre.

Inés Efron, a despeito do roteiro e da mise-en-scène mediana, realiza uma atuação grandiosa como Lala, uma garota de classe média que é apaixonada por sua empregada, a imigrante paraguaia La Guayi (Mariele Vitale), que também demonstra excelente desempenho. Todavia, essas belas atuações só conseguem chegar até a verve de seus papéis – que conste-se aqui, não é muito grande – o que limita essas duas grandes atrizes, as condicionando a atuações que poderiam ser muito melhores pertisse o papel.

É louvável a vontade de Lucía Puenzo de nos mostrar o imaginário e folclore local daqueles lugares fronteiriços com o Paraguai, no entanto a forma como isso é mostrado é um demérito, nem tanto pela acronologia, mas pela forma como a decupagem se faz, tornando uma premissa poética em algo piegas. O menino peixe de que trata o tema é uma figura mitológica local para quem as mães que perderam seus filhos por afogamento atiram jóias e outros pertences num lago na esperança de que o menino peixe os traga de volta. Essa parte da história é das mais interessantes, e talvez uma das poucas que se salve. O resto é sobre um romance improvável de uma burguesa de classe média alta com uma empregada paraguaia, que juntas começam a roubar a casa do pai até por fim matá-lo para fugirem juntas. É exatamente nesse ponto que o filme descaminha e se une aos filmes trágicos do cinema pipoca, havendo daí em diante perseguições e até mesmo – pasmem vocês! – troca de tiros de Lala com um policial para salvar La Guayi.

Existe, a pesar de todo o resto, belas cenas no filme, o fundo lago com jóias entre o semblante do menino peixe nadando se destaca como a mais bela de todas. Entretanto pedem o peso devido a quantidade de outras cenas desnecessárias, cito por exemplo um momento que La Guayi quando vai presa diz “Esta é a realidade”, tentando mostrar ao espectador a realidade totalmente fantasiada de um cárcere feminino, onde de real não vê-se absolutamente nada, e vale a pena citar que mais tarde fica ainda mais absurdo e irreal, que cumina como a pior parte de toda a película, é a cena onde Lala invade a casa do delegado para salvar a namorada, matando o delegado e trocando tiros com oficiais no melhor estilo “Maquína Mortífera”, e saí apenas com um ferimento no tornozelo. E La Guayi afirma que isso é a realidade. Me vem lembranças de “O Cobrador” de Rubem Fonseca, onde o personagem diz no conto “Só rindo”.

“El Niño Pez” peca em mais aspectos que acerta, se tem uma fotografia muito bonita e atores formidáveis, a dramaturgia permeada de lugares comuns: a adolescente burguesa deslocada, o filho drogado, o pai ausente, a relação inter-classes entre Lala e La Guayi, o relacionamento homossexual, e mesmo nas coisas mais interessantes e novas há falta de profundidade, como a obsessão de Lala pela namorada, o ódio desenvolvido de La Guayi pelo pai, deixando uma sensação de superficialidade e neglicência para com o roteiro.

A parte mais interessante, ao meu ver, é a que passa no Paraguai, onde se mostra a cultura do povo paraguaio, desmistificando um pouco esse país através de mitos, isso é algo incrível, indo além do que temos geralmente no imaginário coletivo que são lojas a preços baratos em Guaíra. Há show de dança sertaneja – fato interessantíssimo, por se tratar do mesmo estilo de música que ouvimos aqui nas rádios, quase identico, só que em castelhano – acompanhada de coreografias populares – muito cômicas diga-se de passagem – e oferendas ao menino peixe. Toda essa parte merece destaque, pena não ter sido bem explorada, pois constituí ponto forte do filme.

Deve ser difícil carregar o fardo de “XXY” nas costas, seria difícil para Puenzo realizar outra obra tão densa e bela, mas de toda forma “O Menino Peixe” não se aproxima nem brevemente disso, parecendo não passar de um exercício de estreiante, coisa que Lucía Puenzo não o é, o que lhe confere maior responsabilidade, e, embora não esperasse outro “XXY”, não esperava que iria assistir algo tão mediocre vindo de uma dupla que tanto admiro Puenzo-Éfron. Uma pena.

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Amor a Toda Prova (2011) – Glenn Ficarra e John Requa

Por Samuel Costa

Segundo filme da dupla de diretores americanos Glenn Ficarra e John Requa, que em 2009 estreiaram com o interessante O Golpista do Ano (título com péssima adaptação para o português), Amor a Toda Prova (Crazy, Stupid, Love) é uma comédia romântica boba e sem sal nem açúcar. No começo até consegue ser curioso e prender um pouco a atenção, mas o desenrolar do filme é a mesmice de sempre. Em uma cena dramática depois de brigar com a ex-esposa o personagem Cal (Steve Carell) caminha sozinho pela rua embaixo de chuva e diz para si mesmo (e para o espectador) que isso parece clichê, acho que o termo é adequado para resumir o filme. O que vemos então é uma reunião de bons atores, como Julianne Moore, Marisa Tomei e Kevin Bacon, fazendo um grande de um clichê que mais irrita do que diverte.

A história é um sobre o casal de meia idade, Cal e Emily, interpretados por Steve Carell e Julianne Moore, que estão em crise e entram num processo de separação. Emily traiu o marido com o colega de trabalho David Lindhagen (Kevin Bacon) e contou tudo a ele após pedir o divórcio. Cal fica extremamente abalado, triste, e começa a frequentar o mesmo bar toda noite. Lá ele enche a cara, se embebeda e fica falando dos seus problemas para os quatro cantos sem que ninguém o dê a menor atenção. É aí que o mulherengo e sedutor Jacob (Ryan Gosling) se propõe a ajudar Cal a se transformar num novo homem e mostrar para sua ex-mulher que ela estava enganada ao pedir o divórcio. Jacob é o típico garanhão fútil que só se preocupa em levar mulheres para cama, mas uma garota não caiu em seu papo, Hannah (Emma Stone), a estudiosa formando em Direito que sonha com o pedido de noivado de seu namorado.

Cal e Emily tem dois filhos, Molly (Joey King), que não tem destaque na trama, e o adolescente Robbie (Jonah Bobo), que é tido como o grande apaixonado e filósofo do filme. A todo momento ele proclama a fé no amor e nas “almas gêmeas” e representa o papel grande sábio da vida, apesar da pouca idade. Robbie é apaixonado por sua babá Jessica (Analeigh Tipton) que é mais velha que ele e que por sua vez é apaixonada por Cal. Marisa Tomei interpreta a professora de Robbie e é um dos papéis mais cômicos do filme.

Como podemos perceber há uma gama de bons atores, e destaco que Julianne Moore está belíssima, mas não é suficiente para salvar a história e roteiro. Ao contrário de O Golpista do Ano, que nos surpreende, a cada minuto de Amor a Toda Prova é como se soubéssemos o que vai acontecer na próxima cena. E pra piorar, salvo algumas ligações entre os personagens, podemos prever o final do filme desde o começo. Em síntese é aquele velho esquema feel good dessas comédias românticas aguadas que tem de monte por aí nos circuitos comerciais.

O contraste entre O golpista do Ano, que inclusive foi exibido no festival de Cannes de 2009, e Amor a Toda Prova é gritante. Enquanto o primeiro é uma comédia diferente e com críticas ácidas e irônicas acerca do conservadorismo, o segundo está mais para aquelas historinhas bobas de filmes protagonizados pela Lindsay Lohan. Esta sim é uma atriz que se encaixaria com o estilo do filme.

Este trabalho de Glenn Ficarra e John Requa não traz nada de novo. Consegue sim tirar umas duas gargalhadas ou sorrisos, mas o modelo totalmente clichê e esquematizado faz com que você saia irritado do cinema se estiver esperando um filme no mínimo acima da média. Minha dica pra quem assistir: respire, respire fundo, tente relaxar e parta para uma outra sala de cinema.

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A Árvore da Vida – Terrence Malick

Por Gabriel Dominato

“A Árvore da Vida” do americano Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes é uma obra-prima do cinema, mas muito mais que isso, é um triunfo da arte e da vida, uma obra carregada de um humanismo imenso e um ode ao amor, a tudo e a todos. Não há como medir elogios ao apresentar este filme, é de uma beleza tão extraordinária que capaz de se entranhar nas partes mais profundas do coração humano, contaminando-o com vida. Ver essa obra traz esperança de que nem tudo está perdido. Parece ainda haver uma ultima luz que se sobressai a qualquer escuridão, me remetendo ao poema “The Laughing Heart” de Charles Bukowski onde ele diz que “Pode não haver muita luz, mas há o suficiente para vencer a escuridão”.

A Sra. O’Brien (Jessica Chastain, em admirável interpretação) diz logo nas cenas iniciais que quando era pequena uma freira lhe contou que há duas formas de se atravessar a vida, pelo caminho da graça e pelo caminho da natureza e você deve escolher qual irá seguir. Todas as imagens do filme estão fortemente carregadas destes dois elementos. Há uma cena que representa a criação do universo, onde vemos o cosmos nascer e a vida a existir e se procriar, parecendo que tudo surgiu da graça, até que vemos então a natureza selvagem antes do homem enquanto os primeiros seres unicelulares se desenvolviam. Nesta dicotomia Malick representa perfeitamente as formas que a Sra. O’Brien cita, mas de forma absurdamente poética, em suas imagens, o diretor parece fundir ambas, como na cena de pássaros revoando sobre o céu de uma cidade, onde fica impossível separar a graça da natureza, onde uma parece complementar a outra. E a árvore da vida é mostrada de várias formas, de maneira metafisica com a criação do universo, com o nascimento de Jack (Sean Penn), e de forma material com a plantação de uma árvore, as simbologias para a vida e seu surgimento como forma natural ou pelo caminho da graça está permeada por todo o filme de forma excepcional.

As imagens atordoam, são de um rigor e sensibilidade tão imenso chegam espantar por ser algo tão incomum e por mostrar o que se é impossível de se filmar. Terrence Malick, com um hiato de seis anos desde seu ultimo filme “O Novo Mundo”, consegue comunicar o incomunicável de uma forma quase indescritível, é preciso se assistir a película – que no cinema toma proporções ainda mais gigantescas – para se compreender o motivo de tais elogios. Este é seu elogio a vida, a memória e a infância.

O filme trafega entre a vida atual de Jack (Hunter McCracken, Jack quando criança), sua memória e suas recordações do passado. Tudo se inicia quando a mãe, a Sra. O’Brien recebe uma carta que comunica a morte de seu filho, o mais sensível de três, que provavelmente morreu durante a guerra do Vietnam com 19 anos, dado a época histórica em que o filme é situado. Essa fato parece ser o definitivo para o afastamento da família. Mas voltando mais no tempo quando Jack ainda era uma criança, ele se depara com situações das mais cotidianas desde seu nascimento até se tornar uma criança, mas conforme cresce começa a ver coisas que lhe provocam grande dor, ele diz a certa altura “Pai, mãe, vocês estão sempre lutando dentro de mim, sempre estarão”, como prenuncio de que esse fato ficou para sempre inacabado dentro de si. A Sra. O’Brien parece representar o caminho da graça, não exige nada dos outros, é a personificação da paz e do amor, sendo este personagem que comunica para nós “Ame, ame a todos, cada raio de luz, cada folha”, e “Se você viver sem amor a vida passará rapidamente por você”, enquanto o Sr. O’Brien (Brad Pitt) parece representar o caminho da natureza, rígido, impassível, exige respeito e quer se amado por ser poderoso, seja pelo cargo que exerce ou pela autoridade que tem sobre a família. Esta criação deixa Jack e seus irmãos em um grande conflito existencial.

Jack começa a ver no decorrer de sua vida a doença quando vê um epilético, a dor quando um amigo seu tem o corpo queimado quando sua casa se incendeia, a morte quando outro de seus amigos morre afogado numa piscina. Ele fica em conflito sem saber qual caminho deve seguir pois tem ambos de modelo. Por fim percebe que se parece mais com seu pai, ele diz que não se parece com a mãe, e sim com o pai, é tão ruim quanto ele. Para expressar suas emoções reprimidas em casa extravasa quebrando janelas, fazendo brincadeiras perigosas com o irmão, até que um dia ocorre um acidente e ele parece ficar ainda pior, mas algo muda dentro de si. E isto se refletirá para sempre em sua vida.

Depois vemos Jack já mais velho, tem uma vida semelhante a do pai, embora não vemos muito dela, mas em seu lugar nos é apresentado o caminho tortuoso de sua memória, ele percorre um grande deserto, um caminho difícil, enquanto vai se recordando dos episódios de sua vida, até que por fim encontra todos os personagens de seu passado numa praia, irmãos, amigos, seus pais e vizinhos. Parece que ao se recordar de tudo e aceitar seu passado ele consegue a redenção para seu presente. A memória é genialmente representada por cenários belíssimos, mas um tanto taciturnos e tristonhos, porém ao fazer as pazes com todas aquelas pessoas, com suas memórias vemos uma nova vida renascer, a mesma semente que aparece no começo encerra o filme, como que plantando uma nova chance, um recomeço na vida de Jack, logo após de uma ponte, imagem das mais representativas do filme, onde correm águas por baixo dela, indo embora, deixando a ideia de que os temores da infância são agora águas passadas.

O filme transborda poesia pelas imagens e palavras, Terrence Malick não parece desejar com esse “A Árvore da Vida” fazer uma reflexão muito nova sobre a vida, mas sim reafirmar coisas que nos esquecemos todos os dias mas que temos grande necessidade de nos lembrar, coisas pequenas que a Sra. O’Brien nos lembra no decorrer de todo o filme. “Ame. Ame a todos. Tenha curiosidade. Perdoem”.

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Potiche: Esposa Troféu (2010) – François Ozon

Por Samuel Costa

O filme mais recente do diretor francês François Ozon (8 Mulheres, Swimming Pool: à beira da piscina, O Tempo Que Resta) é excelente na escolha do tema, porém a forma como é desenvolvido oscila entre o muito bom e o irritante. O resultado é uma comédia acima da média, no entanto com uma abordagem sem sucesso. O papel da mulher na sociedade, política e família são alguns dos temas trabalhados, porém de forma  muito simplificada e ingênua talvez.

O filme se passa na França em 1977, a consagrada atriz Catherine Deneuve interpreta Suzanne Pujol, uma senhora que passa os dias em sua mansão escrevendo poemas e ouvindo canções românticas. Enquanto isso seu marido Robert Pujol (Fabrice Luchini) dirige a fábrica de guardas chuvas deixada pelo pai da esposa. No entanto, os negócios na fábrica não vão como planejado, os trabalhadores se organizaram, reivindicam uma série de direitos e fazem greve. Robert é um homem extremamente conservador, expressão dos interesses de uma visão política de direita, defensor de uma perspectiva elitista e da manutenção do capitalismo. Todos os personagens são estereótipos, e este é o estereótipo do patrão explorador.

Ao se agravar a situação na fábrica, os filhos do casal, Joëlle (Judith Godrèche) e Laurent (Jérémie Renier), e a secretária (e amante) de Robert, Nadèje (Karin Viard), também se envolvem na situação com suas opiniões e tentativas de ajudar. A filha é comparsa do pai, falsa e extremamente anti-comunista, o filho é um estudante de ciência política, apresenta uma ideologia de esquerda, mas no que ele realmente acredita para humanidade é a arte. Dentro desse enorme bagunça com misturas de interesses e ideologias, quem realmente vai ajudar a acalmar a situação em um primeiro momento, para o ódio de Robert, é o político comunista Maurice Babin (Gérard Depardieu). É nesse contexto em que Robert tem um ataque do coração e fica de cama, e Suzanne, para a surpresa de todos os outros envolvidos, assume a direção da fábrica. Mulheres no poder, aí está um ótimo assunto.

Primeiro, os pontos positivos do filme, que não são poucos. A obra possui um elenco maravilhoso, as atuações são impecáveis, com destaque para os consagrados Catherine Deneuve e Gérard Depardieu que interpretam um romance permeado de jogos e incompatibilidades políticas. Outro ponto fortíssimo é a forma como o filme é construído que dá base para o cômico da obra. O período retro é reconstruído de modo formidável, não apenas dentro da trama da ficção, mas também no formato que nos é apresentado tentando se aproximar dos moldes de cinema daquela época. Propositalmente o filme é feito de personagens estereotipados, o comunista, o conservador, o artista, a secretária, a filha fútil e a esposa troféu (e outros secundários). Esta última, a esposa, recebe essa taxação porque antes de entrar para o mundo do poder não conseguia transmitir qual era seu papel enquanto mulher, enquanto pessoa, todos a viam como passiva e incapaz. No decorrer do filme a idéia é que ela, e todos os outros personagens, confrontem esses estereótipos, porém o resultado não é satisfatório. O filme também traz como pontos positivos temas polêmicos, em segundo plano, tratados como se fossem a coisa mais comum do mundo, sobretudo, a tentativa de quebra do tabu que existe sobre o aborto e o incesto.

Na medida em que Suzanne toma conta da fábrica, em um passe de mágica tudo se transforma, tudo fica lindo e maravilhoso. O filme tenta passar uma imagem antipartidária e fugir das taxações de esquerda e direita, mas cai na ideologia de um possível capitalismo humanitário. Uma visão utópica, visto que a lógica do capitalismo não é o ser humano, mas o indivíduo, a competição, o lucro e a acumulação de valor.

Também ao tentar desconstruir os personagens estereotipados, o resultado é fraco e cai em algumas armadilhas. Laurent, por exemplo, apesar de ser um personagem interessante do ponto de vista ideológico, ainda assim é um estereótipo do começo ao fim, em nenhum momento há uma desconstrução de seu papel a conclusão de sua trama é a reprodução do que vemos em qualquer filme. Mas é a personagem principal que mais frustra. O diretor tenta apresentar uma personagem autentica, independente e ativa, e ele consegue até certo ponto, porém chega em um momento que se reproduz a imagem da mulher-mãe, ou seja, um outro estereótipo. Por que a mulher na política sempre tem que representar a mãe, nesse caso, do povo? Por que só se evidencia o papel materno e o paterno não? E as mulheres que não são mães? São menos mulheres? É claro que não! Minha contestação vai ao sentido apenas de que o diretor foge de um estereótipo para cair em outro. Porém, de outro ponto de vista, há um elemento positivo que muitas teóricas feministas vêm discutindo, que é a inserção de características tradicionalmente ligadas à feminilidade na esfera da política, como por exemplo, formas de expressão, comunicação e tomadas de decisão, ligadas à emoção e a parcialidade. No entanto, essa representação de feminino é insuficiente para representar mulheres em geral.

Em resumo este trabalho de Ozon é uma comédia legal, bacana, porém cheia de equívocos que parecem incoerentes com o tema e o propósito do filme. Vale a pena assistir pelo trabalho técnico, pelas atuações e alguns elementos da discussão do tema, porém deve ser visto com cuidado. Há de ser questionado seu viés político e a representação do papel feminino. O filme é “simpático” e divertido, mas deixa a desejar.

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